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Entrevista realizada para o blog do Aqui, Ali Dança e Cultura, em maio de 2019, a respeito da pesquisa e projeto Dança-Haicai.

Reproduzo o texto que deu origem a entrevista. Confira o material completo pelo link acima!

Abraços,

Luciana Bortoletto

Dança-Haicai começa no início dos anos 2000, concomitante a minha formação em dança, que tem como base a linguagem da improvisação, a prática da composição coreográfica e um forte vínculo com a fotografia, em uma parceria artística com o fotógrafo de cena e performer Gil Grossi. Aprendi com ele a ter um “olhar fotográfico”. Em 2003 conheci a poesia haicai em um workshop “Arte da Composição” com a bailarina e coreógrafa brasileira radicada na Alemanha Sonia Mota, que propôs um exercício a partir de um haicai específico. Nesse momento, me encantei e passei a pesquisar sobre essa poesia.

 

Observei relações muito próximas entre os princípios, qualidades estéticas e regras para compor um haiku, os estados de cena do improvisador, o olhar fotográfico. Passei a frequentar o Gremio Haicai Ipê e a praticar a escrita de haikus com verdadeiros haijins (poetas haicaístas), tive aula com a poeta Alice Ruiz, participei de concursos e até fui premiada como poeta no Encontro Brasileiro de Haicai. Desenvolvi uma oficina chamada “Dança-Haicai”, que realizei pela primeira vez na Casa Mário de Andrade (a casa dele, na Barra Funda, é uma oficina cultural do Estado de SP). Haicai convida a contemplação ao ar livre e isso foi decisivo no meu encontro com a rua, como artista cênica. Comecei a dançar muito em espaços públicos e escrever poemas. Assim, Dança-Haicai começa em 2003 com um trabalho que conecta profundamente corpo, ambiente, olhar; viaja para muitos lugares desde então, de São Paulo a Alagoas, em mostras e festivais de dança, em bibliotecas, escolas, centros culturais e agora o Aqui, Ali Dança e Cultura! Foram inúmeras oficinas para escritores, professores, estudantes de artes, adolescentes.

 

Este ano o curso propõe aos participantes visitar a trajetória dessa pesquisa, vivenciando o caminho que eu mesma experimentei quando comecei a investigar a Dança-Haicai, como uma retrospectiva que também revela um amadurecimento e muita experimentação. Estamos remontando a primeira performance que criei com essa proposta, chamada “Encontro em três versos”, de 2006. Uma parceria linda que tenho com o sonoplasta percussionista uruguaio Jorge Peña. E então, aos poucos, imergimos no centro da cidade de SP e no Palacete Teresa para explorar as outras tantas maneiras que a poesia haicai integra os processos de criação do …Avoa! Núcleo Artístico, em contexto urbano.

Esse trabalho, portanto, se manifesta como uma espécie de ponte para que adentremos coisas complexas com certa simplicidade… Apresenta o universo que poesia haicai, desvela a cidade a partir de  um olhar muito apoiado na estrutura corporal e afinado com a natureza dentro da cidade, uma ecologia urbana e humana paulistana. Oferece algumas ferramentas muito simples – e profundas – para um criador-intérprete improvisador que contempla seu entorno.  Isso acontece em um contexto muito específico que é o Palacete Teresa e centro histórico de São Paulo, nos desafiando para um entendimento sobre a força da poesia em lugares de passagem, urgências, diversidade, contradições, História e muita pressa.